Leigo na Igreja e cristão no mundo
Prof. Dr. Francisco Catão
O Vaticano II considerou o papel do leigo na Igreja e se abriu para a ação da Igreja no mundo. Aparecida, dando-lhe continuidade, voltou-se de maneira especial para a vida e a ação dos cristãos no mundo: discípulos e missionários, em sua condição de fiéis.
Da parte de leigos, preocupados e comprometidos com a ação e a evolução da Igreja, é imperioso que se exponha, em linguagem acessível, a originalidade dessa teologia do cristão no mundo, implícita no Documento de Aparecida. O Congresso de Leigos pode ser a oportunidade providencial desse trabalho.
O leigo na Igreja
Nos últimos séculos, a Igreja foi gradualmente alijada do poder político e social. Competia-lhe, por tradição, ditar as regras do bem viver à sociedade ocidental, majoritariamente cristã e relativamente disciplinada. Passou a ser desafiada sucessivamente pela reforma religiosa e cultural, pelo mundo industrial moderno e pós-moderno, pelo avanço das ciências, pelo iluminismo etc., tanto como instituição como, também, no plano da fé. Desafio que se amplia com a globalização! Essa mudança a vem obrigando a rever seu papel, como comprovam os sucessivos documentos papais, a partir da fundação da Ação Católica, na década dos 20 e, sobretudo, do Concílio Vaticano II, na dos 60.
Tal mudança é desejável e benéfica, na medida em que devolve à Igreja a priorização de sua missão espiritual e transcendente, mas implica um processo doloroso, em que a hierarquia, o clero e até certos setores leigos, relutam em abandonar uma visão eclesiológica e métodos arraigados há séculos. Por sua vez, o laicato, o povo de Deus, não se encontra preparado e formado para, enfim, assumir o seu papel. Nesse processo, a “nova” missão do leigo não se define apenas pela sua situação funcional dentro da instituição, mas precisa ser construída a partir da maneira como a Igreja se vê e quer atuar no mundo atual.
O cristão no mundo
Olhando as coisas de mais perto, vê-se logo que a questão colocada pelo Vaticano II referia-se ao papel do leigo no seio da comunidade cristã que vive no mundo. O problema do Concílio era mostrar que, como Povo de Deus, a Igreja não consistia principalmente na estrutura hierárquica. A hierarquia está a serviço da comunidade. A Igreja somos nós, a comunidade dos fiéis vivendo na história, sacramento da salvação universal. Comunidade nascida do amor de Deus, manifestado por Jesus na Páscoa e animada pelo Espírito, através dos séculos e culturas, mas, sobretudo, voltada para a realidade invisível, da comunhão com Deus oferecida a todos os humanos.
Ora, essa posição, longe de ser conclusiva e final, abria uma nova perspectiva para os cristãos no mundo, introduzindo uma distinção importante entre Igreja e salvação. Não se pode mais dizer que “fora da Igreja não há salvação”, como se pensou em outras épocas, mas se tem de admitir que a salvação está no mundo, presente à vida de todos os humanos, desde Abel até o último justo, em todas as épocas da história e em todas as culturas. Na verdade, o Vaticano II voltou a colocar em evidência o princípio primeiro do Novo Testamento, de que a salvação é universal e Jesus, o mediador de toda a humanidade junto de Deus.
Dessa forma, por sua própria dinâmica, o Concílio orientou para uma perspectiva mais ampla do que a própria Igreja, convidando a se pensar a vida e a ação dos discípulos e missionários de Jesus, em função do mundo no conjunto, da vida humana pessoal e comunitária na sua totalidade, a ser penetrada pelo Espírito de Jesus. Não se trata apenas de pensar o papel do leigo na Igreja, mas do cristão no mundo. Quais são os grandes desafios que coloca o mundo aos que recebem do Senhor a missão de transformá-lo com a luz e a força de seu Espírito?
Por uma teologia do cristão no mundo: Deus e a Igreja
A perspectiva missionária e evangelizadora em que se quer colocar à Igreja exige que se tome consciência de que o grande desafio para os cristãos nos dias de hoje é a secularização das instituições, dos processos, dos mecanismos e da própria vida. Antes de definirmos nossa posição de leigos na Igreja necessitamos de meridiana clareza a respeito do papel que somos chamados a desempenhar como cristãos, nesse mundo secularizado.
Testemunhas de Deus
Papel este que, por definição, não se pode basear unicamente na Igreja tal como se realiza na história, precisamente no momento quando contestada pelo mundo secular, mas que há de se assentar em algo que esteja além do tempo, da cultura e da história, e que não pode ser senão Deus. O cristão será discípulo e missionário no mundo secularizado, na medida em que for testemunho de Deus, Criador e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Antes de tudo, Deus Criador, tal como o reconhece a tradição bíblica. O Credo cristão começa pela confissão de Deus Pai Todo Poderoso Criador do céu e da terra. Jesus, a partir de quem somos denominados cristãos, viveu sua vida terrena na íntima e total união com Deus, a quem chamava de Pai. O grande desafio que os cristãos enfrentam no mundo de hoje é o ateísmo, como o reconhece o Vaticano II na Constituição Gaudium et spes, cujas raízes, como diz o texto, comporta grande responsabilidade histórica dos cristãos.
Deus é o nome a que damos à Realidade Primeira, transcendente e, por isso mesmo, imanente, que está, portanto, presente no íntimo de todas as coisas, por seculares ou secularizadas que o sejam. Por isso, somos levados a afirmar que Deus é a Realidade final para quem se orientam todas as aspirações e desejos humanos. O Catecismo da Igreja Católica o diz, em termos que lhe são próprios, que o desejo de Deus está inscrito no mais íntimo de todos os humanos e que as mais variadas buscas humanas de auto-realização e de felicidade estão sempre, de algum modo, em busca de Deus.
Cristãos, na Igreja
Nessa moldura primeira da condição humana, em que nos reconhecemos como vindo de Deus, feitos para Deus e somente em Deus nos realizando plenamente, inscreve-se a grande novidade cristã: Deus vem a nós em Jesus. Somente podemos nos realizar como seres humanos, pessoalmente e em comunidade, por Jesus, em Jesus e com Jesus, ou seja, no Espírito de Jesus. Reconhecer-se cristão é reconhecer que somente em Jesus acolhemos a Deus no Espírito e nele encontramos a plena realização de nossa vida e de nós mesmos.
Sendo Jesus a Palavra de Deus que vem a nós, não está longe de nós. Assim como Deus está presente a todos os tempos e lugares, a todas as pessoas, na sua mais profunda intimidade, não precisamos fugir à vida secular para encontrar Jesus, basta que a acolhamos de maneira leal e efetiva, para participarmos do Espírito de Jesus. Ser cristão no mundo, discípulo e missionário de Jesus, é viver do Espírito de Jesus.
O Espírito de Jesus é o Espírito de Deus, Espírito de amor, nos une intimamente uns aos outros como participantes da unidade mesma de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. A Igreja é nossa união, na luz e na força do Espírito de Jesus. Cristãos no mundo, somos a Igreja no mundo. Leigos ou clérigos, religiosos ou seculares, homens ou mulheres, todas essas diferenças são reais, mas segundas, pois aos olhos de Deus somos todos membros de Jesus e formamos o seu corpo, na unidade do Espírito.
Nessa perspectiva teológica, compete especialmente aos leigos ver a realidade de nosso mundo, refletir sobre ela, à luz da fé e descobrir os caminhos de compartilhar essa fé com todos os humanos, oferecendo-lhes, pelo seu agir e por suas palavras, o acolhimento livre e profundo ao Espírito de Jesus em sua vida.
No Congresso de Leigos somos todos justamente chamados a refletir – ver, julgar e agir – sobre as realidades concretas de nossa vida no mundo secularizado, como cidadãos do mundo e membros da Igreja, sem nunca esquecer de que nossa verdadeira cidadania é a comunhão com o Pai, o Filho e o Espírito Santo, que só se realizará plenamente na eternidade.
Nesse trabalho de reflexão sobre a realidade se irão precisando as linhas mais urgentes que devem comandar a ação dos cristãos no mundo, a partir das quais o Congresso de leigos irá encontrando os caminhos para a efetivação de seus objetivos. A ação dos cristãos no mundo secularizado, longe de poder ser definida a priori, constitui um processo e não será manifestada senão através da própria ação, segundo o velho princípio da Ação Católica, da formação na ação.
São Paulo, 20 de abril de 2010